Dividido entre as disputas dentro de campo e os desdobramentos jurídicos, o Vasco avança no processo de recuperação judicial e na venda do futebol do clube. O investidor Marcos Lamacchia, fundador da Almirante Participações, figura como o principal interessado no negócio. A proposta da empresa servirá de base e diretriz para o processo de alienação.
A venda da SAF deve ser realizada obrigatoriamente através de um processo competitivo na Justiça, sob o formato de stalking horse. Nesse modelo, as condições firmadas entre a Almirante Participações e o Vasco definem os parâmetros mínimos exigidos para outros concorrentes, garantindo ainda a Marcos Lamacchia o direito de cobrir ofertas superiores.
A proposta apresentada pela Almirante Participações prevê a aquisição de 90% das ações da SAF. O pacote contempla investimentos de R$ 500 milhões no departamento de futebol, conversão do aporte de R$ 80 milhões em participação acionária, R$ 120 milhões voltados ao Centro de Treinamento profissional e R$ 30 milhões destinados às categorias de base.
Além do aporte de recursos, o documento estabelece a liquidação das dívidas sujeitas e não sujeitas à recuperação judicial, a obrigação de cobrir eventuais déficits de caixa por cinco anos, bem como a proibição da distribuição de lucros ou de revenda da SAF pelo período de dez anos.
Após a definição do vencedor no certame judicial, a aprovação final dependerá de votação no Conselho Deliberativo e na Assembleia Geral de Sócios do Vasco. O negócio também exige a validação da Anresf, órgão responsável pela fiscalização da sustentabilidade financeira no futebol nacional.
O parentesco entre Marcos Lamacchia e Leila Pereira, presidente do Palmeiras, gera questionamentos sobre eventual conflito de interesses. O regulamento do fair play financeiro veta o controle ou a influência de um mesmo grupo sobre múltiplos clubes da mesma divisão. A Anresf analisa a documentação e deve emitir um parecer em breve.
Para contornar eventuais impedimentos regulatórios até o encerramento do mandato de Leila Pereira no Palmeiras em dezembro de 2027, a legislação prevê o uso do blind trust. Por meio do fundo cego, o investidor fica afastado da gestão diária e dos conselhos, transferindo a administração a terceiros independentes.
No âmbito financeiro, os empréstimos tomados pelo clube junto à Crefisa (R$ 80 milhões) e à Almirante Participações (R$ 40 milhões) são enquadrados legalmente como créditos emergenciais no processo de recuperação judicial. Um novo aporte pretendido, no valor de R$ 150 milhões, teve pedido indeferido preventivamente pela Justiça para evitar que o montante acumulado (R$ 270 milhões) desencorajasse outros licitantes no processo competitivo.
O andamento da transação não está atrelado à permanência do Vasco na Série A do Campeonato Brasileiro, com prazo limite de conclusão estimado para 30 de setembro de 2026. Em paralelo, a diretoria associativa atua em tratativas com o fundo 777 Partners para composição de acordo, prevenindo questionamentos judiciais futuros sobre a transferência dos ativos para a nova estrutura societária da SAF.
Fonte: Extra