Ex-Vasco, Eduardo visita bairro da infância e se emociona ao encontrar o 1º técnico

Foi no campinho de várzea do bairro do Clima Bom, em Maceió, que Eduardo deu os primeiros passos no futebol. Fizesse chuva ou fizesse sol, lá estava ele, correndo de um lado para outro, dando drible, fazendo gol. Para Dudu, felicidade era estar com os amigos fazendo o que mais gostava: jogando futebol. Hoje profissional, o lateral, revelado pelo CRB, realizou o desejo de infância de jogar no Maracanã. Defendeu o Vasco, o Atlético-PR, o Bahia, mas nunca esqueceu da sua cidade natal. Todo ano, durante as férias, ele volta, revê os amigos, mata a saudade da família. Dessa vez, ele resolveu visitar o campinho onde tudo começou e, para sua surpresa, encontrou um velho amigo: o seu primeiro treinador. Além do bate-papo com o técnico, Eduardo, de 31 anos, ainda conheceu a nova geração do futebol do Conjunto Rosane Collor.

– Para mim é um prazer enorme estar aqui com ele. Fico contando os dias para vir para casa, é aqui onde me sinto em casa, onde me sinto renovado, me sinto uma criança. Foi aqui que eu comecei, tenho muito orgulho de pisar nesse chão e ver o trabalho do Henrique. Eu sou da favela, sou da periferia, não tenho vergonha de nada, as minhas raízes estão aqui. Não vejo a hora de encerrar o futebol e voltar para casa.

Em Maceió, Eduardo se emociona ao reencontrar primeiro técnico

Em Maceió, Eduardo se emociona ao reencontrar primeiro técnico

Apaixonado por futebol, o pai, Cláudio, foi quem deu as primeiras orientações a Eduardo, mas foi Henrique o primeiro treinador. Na escolinha do técnico, o alagoano evoluiu no futebol e encontrou a sua atual posição. Orgulhoso do pupilo, o Henrique usa sempre o exemplo de Eduardo para nova geração.

– Quero que tenha 10, 20, 30 mil “Eduardos” para nossa comunidade. Acho que esse é um bom exemplo de que em bairros periféricos podem surgir coisas boas. Nosso trabalho é bem dentro de uma favela, e a gente vê muitas coisas boas e muitas coisas ruins. Para os meninos novos ele é o Eduardo, mas para mim ele vai ser o eterno Dudu. Ele sempre foi uma pessoa dedicada, e só posso desejar que Deus ilumine a carreira dele e que ela venha a ter ainda mais sucesso na vida.

Henrique e Eduardo lembraram momentos da infância do jogador  (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Henrique e Eduardo lembraram momentos da infância do jogador (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Estar no campinho, rever Eduardo e não lembrar de passagens marcantes seria quase impossível. Henrique contou boas histórias da época em que Dudu era só um garotinho em busca do objetivo de se tonar jogador de futebol.

– Ah, nessa época a gente treinava aqui e em outros campinhos também, e muitas vezes íamos a pé, de bicicleta. A gente descia a ladeira, e 6 horas da manhã os meninos já estavam no campo. Nessa época, a gente sabia que pelo menos um ou dois poderia vingar, a gente não apontava se era esse ou aquele, a gente dava os ensinamentos, mostrava que deveriam seguir o caminho do bem. E o Dudu conseguiu com mérito dele conquistar tudo o que ele conquistou. E veja só, ele é assim humilde. Ele poderia dar essa entrevista na praia, mas, não, veio para o seu bairro de origem e o respeitamos por isso. Ele é o orgulho do nosso bairro, da nossa criançada, da nossa comunidade.

Eduardo com o melhor amigo, Diogo, e o pai (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Eduardo com o melhor amigo, Diogo, e o pai (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

O pai

Cláudio queria ser jogador de futebol, não conseguiu, fez promessa. Usou a fé para garantir que seu filho realizasse o seu maior desejo de juventude: viver do esporte que amava.

– Meu sonho sempre foi ser jogador de futebol, não consegui. Pedi a Deus que se tivesse um filho homem que ele se tornasse jogador de futebol, e foi o que aconteceu. Ele era abusado, fugia da escola para jogar, deixava o material da escola na casa de um amigo e ia jogar bola. Eu não brigava, mas dava conselho, dizia que futebol sem estudo não dava. Graças a Deus ele realizou o sonho dele e o meu também – disse Cláudio, emocionado.

Na casa da mãe, o quadro da época em que defendeu o Vasco (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Na casa da mãe, o quadro da época em que defendeu o Vasco (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Ver o filho vestir camisa de grandes time deixou o pai feliz, claro. Mas poderia ter sido melhor. É que Cláudio é torcedor fanático do CSA e do Flamengo, aí, já viu, Eduardo foi defender justamente os rivais.

– Foi muito bom vê-lo crescer, só não foi muito bom ver ele indo para os dois times que eu não gostava (risada). Poxa vida, ele foi inventar de ir justamente para o CRB e para o Vasco. Mas tenho que confessar que foi muito emocionante vê-lo jogar no Maracanã. E num Flamengo x Vasco! Até hoje eu tenho as duas camisas dos dois times, e ele jogou com o meu ídolo, o Romário. Foi aí que caiu a ficha, pensei: “Rapaz, esse menino saiu daqui e agora está lá”. É para deixar qualquer pai orgulhoso.

Diogo sempre foi o melhor amigo de Eduardo (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Diogo sempre foi o melhor amigo de Eduardo (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Parceria

As boas histórias da infância também são lembradas pelo companheiro de travessuras e amigo do coração. Diogo era aquele parceiro para toda hora, acreditava no talento de Eduardo e fazia de tudo para que o Dudu seguisse batalhando pela carreira de jogador.

– Nós temos um vínculo como irmãos, sou o padrinho da filha dele. A gente sempre foi amigo e hoje a gente é uma família. O Dudu era brigão, namorador e adorava jogar bola. A gente matava aula para ir jogar, toda tarde, às 16h, a gente se reunia na escola para jogar. Muitas vezes durante a aula a gente se escondia para ir jogar também (risos) – contou.

Diogo sempre esteve presente. Ainda moleque, ele trabalhava como sapateiro e parte do pouco dinheiro que recebia era para ajudar a pagar a passagem de Eduardo, que conta emocionado o que o compadre fez no início da sua carreira.

– Minha mãe trabalhava como doméstica e não tinha muita condição, então, não pedia dinheiro a ela. Quando eu fui para base CRB, muitas vezes eu não tinha nem o dinheiro para a passagem, e era ele (Diogo) que me dava o dinheiro da passagem, ele trabalhava como sapateiro e me arrumava umas chuteiras, consertava as que as pessoas não queriam e me dava de presente. Passamos muitas coisas juntos, muitas dificuldades, muitas vezes tendo que dividir roupa, um vestia uma roupa no ano novo, e o outro vestia a mesma roupa no Natal. Compartilhamos muitas coisas juntos. Ele foi a única pessoa que esteve ao meu lado a todo momento, ele era meu refúgio.

Eduardo se emocionou ao visitar escola da infância (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Eduardo se emocionou ao visitar escola da infância (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Volta no tempo

Durante sua passagem por Maceió, Eduardo aproveitou para visitar a sua primeira escola: a Zumbi dos Palmares. Ao cruzar o portão, muitas lembranças. O campinho de areia, as árvores, as brincadeiras, as peladas.

– Passa um filme na minha cabeça. Lembro das cicatrizes que eu tenho, de briga aqui (risos), são coisas que a gente fica relembrando. Vivi momentos incríveis aqui e jamais esquecerei. Posso dizer que foram, ao lado do meu compadre, os melhores momentos da minha infância. Olho para tudo isso e só me vem lembrança, de quando jogávamos ali, as brincadeiras, tempo feliz.

Ídolo: na escola onde estudou, Eduardo fez a alegria da meninada  (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Ídolo: na escola onde estudou, Eduardo fez a alegria da meninada (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Futebol no sangue

A escola não era o forte de Eduardo. Ele gostava mesmo era de jogar bola, também pudera, o futebol estava no sangue. Os tios dele eram jogadores profissionais e foram os primeiros exemplos.

– Os irmãos da minha mãe tiveram uma carreira futebolística, foram jogadores profissionais. Minha mãe era meio frustrada porque eles jogaram futebol, mas um deles sofreu um acidente e encerrou a carreira. O outro se iludiu com futebol, gastou muito dinheiro e acabou não tendo um fim muito legal, e minha mãe dizia que não queria isso para mim, queria que eu estudasse, mas eu já tinha esse dom e consegui vencer com a minha força de vontade. Eu sempre fui muito dedicado e não deixei que as críticas me impedissem de seguir.

Jogador defendeu o Bahia em 2017 (Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia)

Jogador defendeu o Bahia em 2017 (Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/EC Bahia)

Futuro

Ainda sem clube, Eduardo só quer pensar nesse momento em descansar e aproveitar a família.

– Meu contrato com o Atlético-PR e com o Bahia se encerraram e estou livre para negociar com outra equipe. Tenho algumas propostas, vamos ver no que vai dar. Agora é relaxar e aproveitar para curtir com os familiares e amigos.

Eduardo se emocionou ao voltar ao campinho onde tudo começou (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Eduardo se emocionou ao voltar ao campinho onde tudo começou (Foto: Viviane Leão/GloboEsporte.com)

Fonte: GloboEsporte.com

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