Sálvio Spinola encerrou a partida aos 49 minutos e 48 segundos. O último apito do árbitro no Estádio Couto Pereira naquele 8 de junho de 2011 provocou o êxtase na torcida vascaína e exorcizou alguns fantasmas. Após inúmeros dissabores em várias edições da Copa do Brasil, o Vasco finalmente conquistava o torneio. Depois de perder os quatro primeiros jogos da Taça Guanabara daquele ano, Eder Luis comentou com Rômulo, seu companheiro de quarto nas concentrações, que temia o rebaixamento no Estadual. Mas o Cruz-Maltino não caiu. E, quatro meses depois da conversa com o volante, Eder teve atuação espetacular em Curitiba, jogou “de moto” e foi fundamental no título de um time que no início da temporada era motivo de piada.
Virou motivo de piada para os torcedores rivais porque perdeu para Resende, Nova Iguaçu, Boavista e Flamengo nas quatro primeiras rodadas do Campeonato Carioca. O técnico PC Gusmão não resistiu e caiu. Ricardo Gomes assumiu e caravela vascaína começou navegar por mares menos agitados. Brigar pelo primeiro turno já era impossível, mas na Taça Rio o Vasco conseguiu chegar na final, fez jogo duro com o Flamengo, empatou sem gols e perdeu nos pênaltis. Mas o time melhorava sensivelmente e avançava na Copa do Brasil, torneio que até 2011 era sinônimo de fracasso para o Cruz-Maltino.
O maior trauma, sem dúvida, foi o vice para o Flamengo em 2006. Mas eliminações para times pequenos, como Remo, CSA, XV de Novembro-RS, Baraúnas e Gama, também eram inesquecíveis. E esse fantasma passeou por São Januário já na segunda fase da Copa do Brasil de 2011. Depois de empatar sem gols em Natal, o Vasco saiu perdendo para o ABC na Colina no primeiro tempo e precisava virar (na primeira fase, goleou o Comercial-MS por 6 a 1 e eliminou o jogo de volta). Com certa dose de drama, o Cruz-Maltino conseguiu a virada sobre o ABC com gols de Alecsandro e do reserva Bernardo no segundo tempo.
A terceira fase foi tranquila: 3 a 0 sobre o Náutico em Recife e 0 a 0 no Rio. Tranquilidade que passou longe nas quartas de final. Depois de um 2 a 2 em Curitiba, o Vasco jogava mal contra o Atlético-PR em São Januário. Tentava se garantir no fato de poder empatar sem gols para se classificar. O castigo para a atuação apática veio aos 28 minutos do segundo tempo com o gol do Furacão. Parecia o fim. Mas aos 34 minutos veio a prova inequívoca de que o Cruz-Maltino não tinha apenas um time, mas também um elenco forte. Cruzamento de Fagner, cabeçada de Elton, e os reservas garantiram a vaga (1 a 1).
No jogo seguinte, também na Colina, a atuação do Vasco novamente não foi das melhores. Mais uma vez o adversário saiu na frente. E mais uma vez o empate veio no fim: de pênalti, Diego Souza decretou o 1 a 1 nos acréscimos e minimizou a vantagem do Avaí. Esse gol motivou o time a tal ponto que no jogo de volta o Cruz-Maltino obteve a classificação de forma categórica. Fez 2 a 0 já no primeiro tempo em Florianópolis e, com facilidade, saiu de lá com a vaga na decisão. Em São Januário, na partida de ida da final contra o Coritiba, poucas chances de gol. Mas Alecsandro garantiu a vitória: 1 a 0.
Com poucos minutos de bola rolando no Couto Pereira, o lateral-esquerdo do Coritiba, em tom de brincadeira, aborda Eder Luis depois uma arrancada do atacante e diz:
– Que isso, Eder?
A resposta do vascaíno dá a medida que sua intenção aquele dia era fazer história.
– Hoje vai ser desse jeito. Hoje eu vou jogar de moto – disse Eder.
Pouco depois do diálogo, Eder arrancou pela direita, como se estivesse de moto, e cruzou para Alecsandro abrir o placar. Muitos pensaram que o título estava decidido, pois o Coritiba precisava de três gols. Mas o que estava por vir era um dos jogos mais emocionantes da história recente do futebol brasileiro. O Coxa virou ainda na etapa inicial. No segundo tempo, aos 12, Eder Luis empatou. O Vasco só deixaria a taça escapar se levasse dois. Levou um aos 21 e foi massacrado até o fim. A pressão era tão grande que, no banco de reservas, os substituídos Felipe e Diego Souza nem olhavam para o jogo.
A partir do terceiro gol, o Coritiba jogou praticamente o tempo inteiro no campo de ataque. O Cruz-Maltino levou perigo somente duas vezes, ambas em jogadas de Eder Luis, que não se sabe como correu muito até o fim da partida – talvez por ter jogado de moto. A pressão absurda do Coxa não surtiu efeito e o placar ficou 3 a 2. Acabava o sofrimento de Felipe, Diego Souza, e de todos os vascaínos. Pela primeira vez, a Copa do Brasil era do Vasco.
O time titular do Vasco na maior parte da campanha foi o que começou a partida no Couto Pereira: Fernando Prass; Allan, Dedé, Anderson Martins e Ramon; Rômulo, Eduardo Costa, Felipe e Diego Souza; Eder Luis e Alecsandro.
Confira o depoimento de Eder Luis sobre a conquista da Copa do Brasil:
“Começamos muito mal o Estadual. Muito mal mesmo. Conversando com Rômulo, meu companheiro de quarto nas concentrações, eu estava bem preocupado e falei para ele: “Cara, a gente vai cair no Estadual”. Não foi culpa do PC Gusmão. O Ricardo Gomes é um homem espetacular, um ótimo treinador. Ele chegou, deu confiança para os atletas, e conseguimos corresponder. Sem dúvida a chegada do Ricardo foi muito importante para o título. Tive uma lesão muscular na coxa na segunda partida contra o Avaí e foi difícil ficar fora do primeiro jogo da final. Mas quando os torcedores me viram em São Januário eu recebi muita força. Eles disseram que era uma pena eu não estar jogando, mas que eu iria decidir em Curitiba. Isso me deu muita força, me motivou muito. Eu fui para Curitiba com o pensamento de que aquele era o jogo da minha vida. Estava muito concentrado naquele jogo porque sabia que era o momento para eu fazer história no Vasco. Fomos confiantes, mas também preocupados. Até o Ricardo Gomes, um cara tranquilo, estava apreensivo. A gente sabia que o Coritiba não era uma equipe qualquer. Se eu assistir ao jogo hoje vou ficar nervoso. Foi muito complicado. O gol marcou a minha história. Quando um jogador faz gol em decisão será sempre lembrado. Todo lugar que eu vou os torcedores falam comigo sobre esse gol, dizem que o gol mudou a vida deles. Com certeza é o gol mais importante da minha vida. Entre outros motivos porque era um título inédito para o Vasco. O ponto principal para a gente chegar ao título foi o nosso elenco. Nosso grupo era muito forte. E o time era muito bom. Foi um privilégio fazer parte daquele grupo, que era muito descontraído. Tínhamos prazer de estar juntos. Esse grupo ficou marcado. Pena que se desfez rápido. Fellipe Bastos e Dedé eram os mais brincalhões, sempre alegravam o ambiente. Felipe era um exemplo de liderança. A gente chegava mais cedo nos treinos para jogar Uno, um jogo de cartas. Até que um dia tiveram que proibir o Uno porque estava atrasando o início dos treinos (risos). Também houve outras brincadeiras. E não tem como esquecer do trem-bala, que virou símbolo e até hoje é lembrado.”
Fonte: L! – Blog do Guilherme de Paula